14 de julho de 2010

...IMPRESSIONANTE DESCRIÇÃO....

"paguei um pau"
...para a escrita da jornalista 
e pela descrição do Marcus Cupim , 
como eu o conheci no Jardim das Flores...


A evolução do palhaço


Bruna de Moraes Tiussu *



Contrariando todas as minhas expectativas, não consegui reconhecer a pessoa com quem havia marcado um café três dias atrás. Não que não tivesse ideia de como ele era. Eu sabia. Havia visto diversas fotos na internet e inclusive um espetáculo em que ele fora o protagonista. Porém, a ausência da maquiagem e da roupa que o caracteriza em cima do palco dá a ele uma aparência completamente distinta. Como poderia arriscar que um homenzão de 1,80m, 93 quilos, com músculos bem definidos e distribuídos pelo corpo todo fosse palhaço de circo?

– Já me acostumei com esse estranhamento. Quando falo que sou palhaço ninguém acredita mesmo. Até mudei a maneira de me apresentar, agora digo que sou empreendedor.

O que não deixa de ser verdade. Depois de oito anos vivendo no exterior como comediante do circo mais famoso do mundo, o canadense Cirque du Soleil, Marcos Casuo deixou pra trás emprego, fama, estabilidade e, no final de 2008, voltou à sua terra natal para realizar seu grande sonho: montar a própria trupe.

Seus amigos mais céticos definiram a atitude como loucura total. Os mais dramáticos acharam que ele estava jogando fora a sorte grande. Os companheiros da companhia ficaram em choque no primeiro momento, afinal, não se mexe em time que está ganhando. Mas Casuo simplifica: “Ciclo encerrado, só isso. Não tinha mais o que criar lá e meu coração começou a pedir novas experiências. Minha história agora é aqui”.

Essa história já começou e tem nome, Universo Casuo. Desde o início de 2009 ele não poupa esforços para transformar o sonho em realidade e até já tem um espetáculo montado e com elenco de 30 pessoas, entre artistas, músicos, iluminador e sonoplasta. A dedicação à nova proposta é quase integral. Nos últimos seis meses não saía do escritório. Eram 17, 18 horas por dia ali, montando o show com zelo de relojoeiro suíço, cuidando da parte burocrática, finanças e marketing.

Mesmo afirmando que a intenção não é montar um Cirque du Soleil brasileiro, a comparação é automática. A apresentação do UC conta com uma qualidade de som e iluminação nunca vistas em apresentações circenses do País. Todo o elenco pode se falar durante o show, graças ao software de comunicação mais moderno disponível no mercado. A banda canta ao vivo durante todo o espetáculo músicas que foram compostas com exclusividade para o Universo.

Os figurinos são especialmente confeccionados para cada artista, com tecidos diferenciados, de cores vivas e que conferem maior conforto e resistência. A maioria é feita a mão e custa, em média, R$ 1.500 cada. A maquiagem dos personagens é sutil, bem desenhada e com brilho nada exagerado. Para chegar nesse resultado, Casuo escolhe pessoalmente quais produtos o elenco deve usar e faz com que todos participem de workshops de pintura de tempos em tempos. No backstage e camarins, tudo é limpo e organizado.

“O público quer qualidade. Você não vai ao circo se tem cheiro de mijo, se a cadeira não é confortável, se os artistas não são bonitos”, afirma Casuo categórico antes de emendar a pergunta: – Por que você acha que os canadenses têm tanto orgulho do Cirque?. Ele é incisivo na defesa da ideia de que falta um upgrade no que existe aqui no Brasil. Sua grande birra é que investimento e tecnologia de ponta não chegam ao mundo circense nacional. “Aprendi lá fora que essa é uma tarefa do dono do circo. Ele tem que estar atualizado e correr atrás de inovação.”

Escolher o elenco que se encaixasse na ousada proposta que também apelida de “um novo conceito de entretenimento para o Brasil” não foi tarefa fácil. Não por falta de oferta, mas porque queria aplacar um desejo confesso de agrupar os melhores do País. Sempre acreditou que só a mescla de diferentes profissionais e a troca de técnicas renderiam um espetáculo rico. Casuo começou, então, buscando alguns artistas com quem já havia dividido palco e outros que conheceu durante as breves passagens pelo Brasil com o Cirque, como Edu Garbin.

Profissional de bike trail, Edu já foi campeão brasileiro e paulista da modalidade, mas hoje se dedica ao esporte somente como arte. Vestindo uma roupa toda azul e uma espécie de peruca punk da mesma cor, é o responsável pela abertura do show do Universo, com o número Bike Shark (tubarão de bicicleta). “É uma honra estar nesse projeto. Dá pra ver que é amor mesmo e que o Casuo não faz pelo dinheiro. Só quer mostrar um trabalho bonito para o público.” Os elogios prosseguem: “Ele consegue passar uma segurança e uma clareza incrível para todo o elenco e nos dá muita liberdade, coisa rara no nosso meio”.

Casuo preza a espontaneidade e sutilmente tenta passar a lição a todos que o rodeiam. Ele ainda treina caretas e expressões na frente do espelho, é verdade, mas quando no palco não precisa fazer um esforço consciente para provocar risos nas pessoas. Diz que a diferença é que não está contracenando, mas vivendo o momento. “Sou eu ali, sempre a mesma coisa, mas em tempos diferentes, sabe?” Ao longo da carreira foi criando personagens que refletiam cada fase da sua vida, e assim continuou no Cirque du Soleil. Quando foi protagonista do espetáculo Alegria – o único brasileiro a conquistar tal proeza – desenvolveu cinco números que ainda são utilizados pelos artistas de lá. A marca registrada deles é o uso do granmelô, uma linguagem distorcida, baseada na maneira das crianças falarem que impede o público de reconhecer qual é a língua falada pelo artista. Até hoje Casuo recebe os royalties das criações – dinheiro que se transforma imediatamente em investimento para o Universo.

Devorando bolachinhas doces como um moleque que não sossega enquanto não vê o pacote vazio, ele assume com uma pitada de saudosismo – mas não arrependimento – que viveu momentos de popstar dentro da companhia canadense. “Tinha o melhor quarto do hotel, podia chamar meus amigos e dar festinhas. Era pura mordomia, como a gente vê acontecendo com as celebridades mesmo”. Se os artistas do Cirque ganham cerca de US$ 100 por show, Casuo chegou a faturar US$ 400, em uma época em que a trupe subia ao palco quase 10 vezes na semana. Mas a lembrança que realmente faz brilhar seus olhos é outra: “O maravilhoso era ser um artista reconhecido e ter certeza de que o que você faz tem valor”.

Seu alter ego clown Casuo caiu na graça do mundo artístico internacional assim que se apresentou na Inglaterra e no Japão, com o Cirque du Soleil. Depois, fez rir plateias de outros 20 países, recebendo aplausos calorosos do público. No seu auge, aparecia nas pesquisas como um dos dez melhores clowns do mundo. 

Apesar de no Brasil o Ministério do Trabalho reconhecer a profissão palhaço e clown como a mesma (está inscrita sob o código 3762-45 na Classificação Brasileira de Ocupações, junto ainda com as denominações cômico de circo, excêntrico e a estranhíssima Tony de soirée), vale esclarecer: Casuo é clown, não palhaço. “O clown é a evolução do palhaço, é como se o palhaço almejasse se transformar num clown”, explica. Lá fora a diferença existe e é perceptível. O clown é o mestre de cerimônia, aquele que comanda o espetáculo, o mais aclamado do show. Para clarear a distinção, basta buscar na memória imagens de dois dos mais consagrados clowns europeus do início do século XX, o inglês Charlie Chaplin e o espanhol Charlie Rivel.

Quase como um dogma, todas as decisões no Universo Casuo são tomadas considerando a premissa reconhecimento artístico. “Vocês têm que existir artisticamente” é uma das frases que Aline Godoy, a cantora da banda do UC, aponta como as mais repetidas por Casuo durante os encontros do elenco. “Canto profissionalmente há 13 anos, em bares, peças de teatro e até musicais em navios, mas nunca trabalhei com alguém que valorizasse tanto o artista. A experiência é muito enriquecedora e vemos os resultados. Independente da idade do público, todos se emocionam com nosso espetáculo. Ter esse feedback é incrível, é como viver um sonho”, afirma ela.

Se a Aline, o Edu ou qualquer outro integrante da trupe digitar hoje o seu nome no Google, provavelmente um link relacionando-os com o UC estará já na primeira página da pesquisa. Casuo é enfático quando diz que esse aparecimento na mídia é essencial e está só começando. “Temos site, blog e também estamos no twitter. As pessoas interessadas têm que achar nosso telefone e e-mail de cara. Isso é primordial. Só assim vamos conquistar espaço e o chegar perto do povão.”

Até agora é o corporativo que tem alimentado o UC. No ano passado, Casuo e sua equipe foram contratados por nomes de peso do mundo do business, como IBM, Google, Banco Santander/Real, Unimed, Villares Metals, JP Morgan Chase, Atlas Schindler, e ainda se apresentaram na entrega no Prêmio Esso de Jornalismo, no Copacabana Palace do Rio de Janeiro. Mas com sua habitual lábia enfática, o líder da trupe deixa claro que não dormirá tranquilo enquanto não escutar a marca Universo Casuo saindo da boca de pessoas de todas as classes sociais. 

O mais afastado que estiveram da elite empresarial em 2009 foi durante as quatro grandes apresentações que fizeram em Limeira, as duas em Campinas (ambas no interior do Estado), e uma em Curitiba, capital paranaense. Todas tiveram público máximo. Também se aproximaram do chamado povão em participações na telinha. Estiveram em dois programas, Altas Horas, de Serginho Groisman e Dia Dia, de Silvia Popovic. Não que sejam exemplos ideais de, digamos, ibope classe média, como é o caso do Domingão do Faustão e do Domingo Legal, mas mesmo assim já foram dois grandes passos rumo ao estrelato popular. A solução para esta lacuna (ou pelo menos o começo dela) pode chegar a qualquer momento. A trupe fez pedido de incentivo ao governo pela Lei Rouanet e agora aguarda sua aprovação, segundo a equipe, prevista para março. Quando sair, vão poder levar a alegria do UC para teatros dos quatro cantos do Brasil durante um ano.

A expectativa certamente é grande, mas o artista Leon Schlosser afirma ter paciência para esperar pela promessa de agenda cheia. Ademais, lidar com o tempo é sua especialidade. Não é a toa que, cada vez que o Universo se apresenta, ele sobe ao palco para encenar, junto com seu companheiro, o número de mesmo nome: “O Tempo” – que curiosamente estourou depois que passaram pelo quadro “Se vira nos 30” do Domingão do Faustão, há seis anos.

Os braços firmes permitem que ele erga todo o seu corpo, durante longos 15 segundos, enquanto as pernas ficam completamente esticadas. Minutos depois, pode estar deitado no chão suspendendo seu parceiro novamente só com a força dos braços. Ou ainda pode fazer o mesmo, dessa vez usando somente as pernas. O difícil é acreditar que Leon é um senhor de 76 anos. Pior: é vergonhoso assumir que com um terço dessa idade eu não consigo nem ao menos dar uma estrela... 

Com a experiência de quem já viu muita coisa, Leon afirma não ter receios quanto ao futuro do grupo, uma vez que é Casuo quem está no comando. “Ele é mais ou menos como eu, nunca está satisfeito com o que tem. Somos do tipo sonhadores, seguimos sempre em frente. Com pé na terra e cabeça nas nuvens”, completa com uma certa leveza na voz.

A maneira de Casuo sonhar é peculiar. É colorido, como bem gosta de enfatizar. Significa que não há escuridão ou temores grandes o suficiente para fazê-lo abandonar um desejo. Sua vida é movida por paixões e, desde menino, a arte se mostrou a maior delas. “Quando criança eu sentia que precisava de spotlight, público, som, dança, aplausos. Como se já soubesse que queria ser ator, mas ainda não conhecia essa palavra”, lembra. Criado no Jardim das Flores – bairro paulistano próximo a Interlagos, na zona Sul – pela avó paterna, foi ela quem primeiro notou a veia artística do pequeno neto. Ele tinha apenas quatro anos quando o apelidou de “palhacinho”. Na escola era tachado de brincalhão e um pouco mais tarde lá estava ele na turma da capoeira, do break dance, da ginástica artística, do balé, do jazz. De repente se viu no Grande Circo Popular do Brasil, do Marcos Frota, onde trabalhou como palhaço por nove anos.  

Confesso que descobrir que ele é sagitariano justificou um pouco seu jeitão. Impossível, agora, estranhar sua aptidão artística e humorística. Mais fácil, também, é compreender seu espírito “crianção impressionado”. Há quatro meses Casuo virou vegetariano. Depois que viu no YouTube o filme “A Carne é Fraca” tem dispensado qualquer picanha suculenta (e olha que ele garante fazer uma caprichada) e todos os convites de churrasco dos amigos. “Não dá mais. Até leite tá difícil de beber”, assume. Chora, dá risada e se arrepia no cinema. Após assistir ao longa “Atividade Paranormal”, ficou três dias incomodado em casa, achando que havia alguma coisa estranha ali. E completa: “Outro filme de terror só no ano que vem”. Se tem um jantar de negócios, mentaliza que deve se comportar, maneirar nas besteiras e evitar ficar gesticulando como um desesperado. Ainda se segura para não começar a refeição pelo banana-split, seu “prato” preferido. 

Os astros também confirmam a necessidade de doação, e de promover o bem coletivo como característica típica desse signo. E há poucos ambientes melhores que o circo para isso. Para Casuo, ele é a mãe de todas as artes, o que reúne dança, música, expressão, poesia e por aí vai. Ele o descreve como “a ferramenta mágica que leva sorriso, amor e alegria a todos os tipos de público”. Tem muitos planos, é verdade, mas só é capaz de trabalhar com determinação um de cada vez. Como no momento o Universo Casuo é a menina dos olhos, o assunto domina sua mente. Certamente há quem ache cansativo, pois dificilmente consegue passar meia hora conversando sobre algum outro tema sem mencionar algo relativo ao projeto.

Na lista dos próximos anseios a correr atrás está a criação de uma clown school: “Há muitos grandes talentos nos semáforos de São Paulo. Quero juntar essa galera e treiná-los”; encaixar alguns pocket-shows na agenda: “Hoje, só com pequenas apresentações consigo chegar nas comunidades carentes. E como é gratificante levar alegria aonde ela não chega nunca”; terminar um livro: “Chama-se ‘O Grande Circo de Pulgas de Baltazar’, onde as personagens têm espírito de pulga e corpo de humano. Pode ser até que vire uma peça de teatro, não sei”; e voltando ao Universo, ainda falta o grande salto de ter seu próprio picadeiro: “Até o fim do ano quero comprar minha lona, palco e arquibancada. Mas como isso tudo custa cerca de R$ 1 milhão e meio, preciso arrumar patrocinadores”, diz meio que torcendo o nariz.

Aos 35 anos, de volta ao colo familiar, cheio de fôlego e desejos a concretizar, é razoável que Casuo nem pense em encerrar carreira. Ele conta que fez um trato com Deus, prometeu não entregar as chuteiras enquanto conseguir, lucidamente, fazer as pessoas rirem. “Às vezes tenho a impressão que não vou morrer quando meu coração pifar, mas sim quando não puder mais pisar num palco. Eu não consigo parar.” Dramas à parte, sorte a nossa que ele pensa assim. Pois se o clown Casuo é ídolo lá fora, quem duvida que é chegada a hora de ele fortalecer seu fã-clube aqui, na sua terrinha natal? Mas para isso o espetáculo não pode parar. E ele avisa: “Segure seu assento. O Universo Casuo está só começando”.


* Jornalista e pós-graduanda 
em Jornalismo Literário 
pela Academia Brasileira 
de Jornalismo Literário 
(www.abjl.org.br), 
turma São Paulo 2009.

2 comentários:

...podas...quando você comenta eu posso crescer...pensar...amadurecer a idéia...